Mostrar mais resultados...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Mostrar mais resultados...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Voto distrital misto: a utopia que pode virar paraíso dos caciques

Hugo Motta, uma das principais expressões do Centrão na política brasileira, quer votar a mudança ainda neste ano; proposta exige debate sobre o poder dos partidos e o espaço para novas lideranças.

Colunista

Biguaçu

Logo Jornais em Foco

Jornais em Foco

Foto: O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (centro), uma das principais expressões do Centrão na política brasileira, quer colocar em votação ainda neste ano a mudança para o voto distrital misto. Em artigo de opinião, Décio Baixo Alves critica a pressa e alerta para o risco de a reforma fortalecer caciques partidários e dificultar o surgimento de novas lideranças.

Por Décio Baixo Alves

Toda vez que os caciques partidários aparecem com uma solução milagrosa para melhorar a democracia, o brasileiro deveria prestar atenção aos detalhes. Principalmente quando a proposta vem acompanhada de pressa e pode aumentar o poder de quem já controla candidaturas, dinheiro eleitoral e negociações por cargos.

É o caso da articulação pelo voto distrital misto, conduzida pelo presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta. Uma das principais expressões do Centrão na política brasileira, Motta anunciou que pretende discutir e colocar a mudança em votação ainda neste ano, com transição em 2030 e implementação do modelo em 2034.

Uma transformação dessa dimensão exige debate amplo, explicações claras e participação da sociedade. A disposição de Hugo Motta para acelerar essa discussão merece cobrança pública. O presidente da Câmara precisa explicar por que considera adequado decidir uma mudança tão profunda antes da posse do novo Congresso.

A promessa é sedutora: aproximar o parlamentar do eleitor. Quem seria contra? O problema está em vender essa aproximação como garantia de uma representação melhor. Um deputado pode morar perto da sua casa e continuar muito distante dos seus interesses.

Na parcela distrital, a disputa acontece dentro de um território delimitado. Na outra parcela, as vagas são preenchidas conforme o modelo de votação partidária adotado. Se houver lista fechada, a ordem dos candidatos será definida previamente pelo partido. É nessa combinação que mora o risco de concentrar ainda mais poder nas mãos das direções partidárias.

Imagine uma mãe cuja principal luta seja conseguir atendimento e inclusão para o filho com deficiência. Ela encontra uma candidata que conhece o assunto, apresenta propostas e fiscaliza os serviços públicos. Se essa candidata disputar por outro distrito, a mãe não poderá votar nela na parcela distrital. A proximidade geográfica terá prevalecido sobre a identificação com uma causa.

O mesmo pode acontecer com quem prioriza segurança pública, defesa dos animais, redução de impostos ou combate à corrupção. As preocupações do cidadão não terminam na divisa de um distrito. As leis federais também não.

Existe ainda a desigualdade entre os concorrentes. Pense em uma professora, um pequeno empresário ou uma liderança comunitária tentando iniciar a vida pública. Do outro lado, um parlamentar com anos de exposição, aliados nas prefeituras e influência sobre a destinação de emendas.

Esse estreante já enfrenta dificuldades no sistema atual. Dependendo do desenho dos distritos, poderá encontrar uma máquina ainda mais concentrada e organizada para defender o próprio território. O que se apresenta como aproximação pode acabar funcionando como proteção de redutos.

Hugo Motta e os dirigentes que defendem a reforma precisam responder: como garantir uma disputa competitiva para quem está começando? Que mecanismos impedirão que lideranças estabelecidas transformem distritos em fortalezas eleitorais?

Outra pergunta decisiva é quem vai desenhar esses distritos, com quais critérios e sob qual fiscalização. A divisão territorial pode favorecer grupos políticos, como alertou a cientista política Marcela Machado em entrevista à Rádio Câmara. Um mapa eleitoral pode influenciar profundamente o resultado da disputa.

Na eventual lista fechada, surge outro problema. Imagine um partido que coloque nas primeiras posições dirigentes tradicionais e deixe uma liderança nova, respeitada pela comunidade, no fim da relação. O eleitor poderá simpatizar com essa liderança, mas seu voto na legenda seguirá a ordem estabelecida internamente.

Nesse cenário, a renovação dependerá também da posição que o comando partidário permitir. É um incentivo perigoso: agradar ao chefe pode passar a valer mais do que conquistar a confiança da população. Quem questiona decisões internas corre o risco de perder espaço; quem obedece pode ganhar uma posição privilegiada.

Os efeitos do voto distrital misto dependem das regras adotadas. Por isso, considero irresponsável apresentar a mudança como solução pronta enquanto questões fundamentais permanecem em discussão.

A pressa para votar antes da posse do próximo Congresso reforça a desconfiança. A articulação para antecipar a decisão foi noticiada em meio à avaliação de que a nova composição da Câmara poderá oferecer maior resistência à mudança. Se a proposta é tão boa para o eleitor, por que tanta urgência em resolvê-la antes da chegada dos novos representantes?

É nesse ponto que a atuação de Hugo Motta, como presidente da Câmara e liderança identificada com o Centrão, precisa ser questionada com firmeza. Sua responsabilidade institucional exige dar espaço ao contraditório, às novas lideranças e à sociedade que terá de conviver com essas regras.

Na minha avaliação, a grande sacanagem política está em embalar como avanço democrático uma reforma que pode ampliar o controle dos mesmos grupos sobre o acesso ao poder. O cidadão recebe a promessa de protagonismo, enquanto os caciques podem ganhar mais instrumentos para selecionar quem terá condições reais de se eleger.

O Brasil precisa de partidos com democracia interna, financiamento transparente e espaço para quem começa. Precisa permitir que novas lideranças disputem a confiança da população sem depender de submissão aos donos das legendas.

A utopia de aproximar o representante do povo não pode servir de desculpa para afastar o povo das decisões. Antes de colocar essa mudança em votação, Hugo Motta e seus aliados precisam explicar quanto poder pretendem entregar ao cidadão e quanto pretendem guardar para si.