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Por Décio Baixo Alves
Cobrar explicações dos outros é confortável. Submeter os próprios interesses ao mesmo escrutínio exige coerência. É justamente essa cobrança que agora deve alcançar Reinaldo Azevedo diante das revelações sobre o patrocínio ligado ao Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Segundo reportagem da Revista Oeste, informações atribuídas a mensagens extraídas do celular do banqueiro expuseram o vínculo financeiro envolvendo o jornalista e o banco. O episódio exige esclarecimentos públicos sobre a relação entre dinheiro de patrocinadores e independência jornalística.
Em nota reproduzida pela TMC, Azevedo confirmou que o podcast Reconversa, apresentado com o advogado Walfrido Warde, teve patrocínio do Master por meio da empresa Super. Segundo ele, o contrato firmado em março de 2024 previa R$ 1,2 milhão, em 12 parcelas de R$ 100 mil, das quais sete foram pagas. Portanto, conforme sua própria versão, foram R$ 700 mil destinados ao projeto.
Azevedo afirma que declarou os valores, recolheu os impostos e informou seus contratantes. Também nega ter escrito em defesa do banco, colocado o podcast a serviço da instituição ou conversado com Vorcaro e Fabiano Zettel. No entanto a acidez dos comentários de Azevedo criticando posturas de desafetos políticos contrários a sua ideologia não foram feitos nas relações de contratos com o Master do banqueiro bandido, o que chama a atenção.
A confiança do público exige algo mais: clareza sobre quem financia um programa e sobre quais mecanismos protegem suas escolhas editoriais.
O público merece conhecer as condições desse contrato, suas contrapartidas e a forma como o vínculo com o Master foi apresentado à audiência. Informar contratantes e informar espectadores são responsabilidades distintas. Quem acompanha uma entrevista precisa ter condições de identificar os interesses comerciais que cercam aquela produção.
É aí que o discurso moral enfrenta seu teste mais incômodo. Quem cobra explicações minuciosas de políticos, empresários e adversários precisa aceitar perguntas igualmente minuciosas sobre o próprio trabalho. Prestígio profissional não concede imunidade ao escrutínio.
Na resposta publicada, Azevedo também atacou seus críticos e apontou relações financeiras de adversários políticos com Vorcaro. Essas relações igualmente merecem investigação e esclarecimento. Contudo, enumerar problemas alheios não encerra perguntas sobre o próprio contrato. Uma prestação de contas perde força quando vira palanque para desqualificar quem pergunta.
Trata-se de “moralidade de cueca” o rigor que exige exposição completa dos outros e se satisfaz com explicações limitadas quando a cobrança chega perto. Esse padrão precisa ser rejeitado em qualquer redação, qualquer partido e qualquer corrente política.
Reinaldo tem direito à defesa e deve ser cobrado pelos fatos demonstrados. A audiência, por sua vez, tem direito a explicações verificáveis. Publicar o contrato e detalhar suas contrapartidas seria uma resposta muito mais convincente do que transformar toda pergunta em agressão política.
A autoridade de um jornalista se sustenta na disposição de enfrentar as perguntas que ele próprio faria a outra pessoa. Quando o assunto é dinheiro e influência, a régua precisa alcançar também quem segura o microfone.