Mostrar mais resultados...

Por Décio Baixo Alves
Uma entrevista pode conter verdades, contradições, acusações sem provas e informações que mereçam investigação. A atitude responsável diante dela é ouvir, confrontar versões e exigir elementos que sustentem cada afirmação. Quando a primeira preocupação passa a ser impedir que o assunto ganhe repercussão, a política começa a perder seu compromisso com o interesse público.
É nesse ponto que se concentra minha indignação com André Janones. Segundo o relato sobre a orientação atribuída ao deputado no canal “Exército do Lula”, apoiadores deveriam evitar interações com conteúdos da entrevista de Roberta Luchsinger à CNN: não comentar, não curtir, não rebater, para não ampliar seu alcance e prejudicar eleitoralmente o presidente.
A mensagem original precisa ser conferida integralmente. Mas, se esse foi o comando, considero a postura uma canalhice política. Antes de avaliar o conteúdo, já se estabelece uma prioridade: evitar desgaste para o candidato apoiado. A pergunta sobre a veracidade do que será dito fica subordinada ao cálculo de conveniência eleitoral.
Ninguém é obrigado a assistir a uma entrevista ou a compartilhar suas declarações. Tampouco uma pessoa investigada deve ter suas palavras aceitas automaticamente. Roberta precisa sustentar o que afirma, assim como os citados têm direito de responder. É justamente por isso que ouvir e verificar são atitudes necessárias.
Um parlamentar comprometido com o esclarecimento poderia recomendar prudência: acompanhem, não façam julgamentos precipitados, procurem provas e comparem as versões. Seria uma orientação republicana, capaz de reconhecer que a obrigação de apurar não depende de quem será beneficiado ou prejudicado.
Pedir um apagão de atenção por conveniência de campanha transmite outra mensagem: se houver algo incômodo, o melhor é que circule menos. E se surgir uma informação relevante? E se uma denúncia apresentar elementos verificáveis? O interesse dos brasileiros deve esperar até que a campanha decida se o assunto ajuda ou atrapalha?
O relato de sofrimento também merece ser ouvido com seriedade. Isso não torna verdadeira toda acusação de quem se diz ofendido, mas exige humanidade. Reduzir uma manifestação pessoal a um problema de alcance nas redes empobrece o debate e transforma pessoas em obstáculos de comunicação eleitoral.
É essa lógica que condeno: tudo pelo voto, tudo pela proteção da candidatura, tudo pela permanência no poder. Quando ela prevalece, a militância deixa de ser estimulada a pensar e passa a receber instruções sobre aquilo a que deve dar atenção.
Minha crítica a Janones é política e moral. Não se trata de atribuir a ele um crime, mas de cobrar responsabilidade de quem exerce um mandato público e influencia o comportamento de seguidores. Quanto maior essa influência, maior deveria ser o compromisso com a análise dos fatos.
O Brasil precisa de cidadãos capazes de cobrar explicações inclusive dos políticos que apoiam. Lealdade partidária não pode exigir abandono do senso crítico.
Se a orientação atribuída a Janones se confirmar nesses termos, fica uma pergunta que algoritmo algum responde: de que vale vencer a disputa pela atenção quando se perde o compromisso com a verdade? Ou seja: André Janones não passa de um canalha.