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Por Décio Baixo Alves
A eleição terminou no último domingo, 25 de outubro, com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas, para uma parcela dos brasileiros, parece que a disputa precisa continuar no balcão da padaria, na porta da loja e dentro do ambiente de trabalho. É uma extensão lamentável da polarização: transformar a preferência eleitoral em motivo para atingir o sustento de alguém.
Nos últimos dias, surgiram denúncias de listas contra comerciantes e profissionais identificados como apoiadores de Lula, acompanhadas de mensagens de boicote e de incentivos à demissão ou à recusa de contratação de trabalhadores. Os episódios motivaram pedidos de investigação às autoridades. Cada denúncia precisa ser apurada, com comprovação dos fatos e identificação dos responsáveis.
Isso é grave. E não fica menos grave porque já houve campanhas contra empresários ligados à direita. Da mesma forma, o histórico de boicotes promovidos por setores da esquerda não pode desaparecer quando muda o alvo da vez.
A intolerância não começou nesta eleição. Nos últimos anos, Havan, Riachuelo, Madero, Coco Bambu, Smart Fit e outras marcas apareceram em campanhas de boicote por serem associadas a empresários apoiadores de Jair Bolsonaro. A proposta era deixar de consumir conforme o posicionamento político atribuído aos proprietários.
Em 2022, novas listas atingiram empresas como Havan, Mormaii e Coco Bambu. A Gocil também entrou na mira, e seu proprietário, Washington Cinel, lamentou publicamente o boicote. Empresas incluídas nessas campanhas chegaram a declarar que eram apartidárias, mostrando o risco de transformar uma marca inteira em extensão eleitoral de seus sócios.
Também houve participação de pessoas que passaram a ocupar espaço na política institucional. Thiago dos Reis, eleito deputado federal pelo PT paulista neste ano, publicou, antes de sua eleição, listas de empresas cujos proprietários eram classificados como bolsonaristas, acompanhadas de apelos ao boicote.
Fernando Haddad entrou nessa discussão em janeiro de 2023, durante participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos. O ministro comentou que consumidores brasileiros haviam deixado de comprar de empresas pelo envolvimento delas com o governo anterior e afirmou observar de quem adquiria produtos. O contexto incluía críticas ao extremismo, mas a declaração foi interpretada por adversários como incentivo ao boicote ideológico.
Do outro lado, o caso de Cafelândia, no interior paulista, mostra como essa prática pode ultrapassar uma discussão sobre consumo. Uma lista divulgada no período eleitoral de 2022 atingiu comerciantes e profissionais que não demonstravam apoio à reeleição de Bolsonaro. O episódio envolveu divulgação pela internet e por folhetos, com relatos de constrangimento e prejuízos. Em julho de 2025, o Tribunal de Justiça de São Paulo reformou uma absolvição e condenou dois responsáveis por perseguição.
Esses episódios não são idênticos. Tampouco permitem afirmar, sem dados, que os dois campos praticam os mesmos atos na mesma proporção. Demonstram, porém, que a tentativa de punir economicamente o adversário político atravessa diferentes grupos. Nenhum deles pode reivindicar licença para fazer hoje aquilo que condenava ontem.
O consumidor tem suas convicções e pode orientar suas compras por elas. Empresas também podem ser criticadas por suas práticas e manifestações públicas. Entretanto, existe uma diferença fundamental entre uma escolha individual de consumo e uma campanha de intimidação, exposição de pessoas, ameaças ou pressão para que alguém perca o emprego.
Na relação entre patrão e empregado, essa diferença merece atenção especial, porque existe uma desigualdade de poder. O sustento de uma família não pode ficar condicionado à obediência eleitoral ao empregador. A competência de um funcionário deve ser avaliada pelo trabalho que realiza, e não pelo candidato que escolheu na urna.
Também é preciso responsabilidade ao divulgar relatos. Uma ameaça de demissão deve ser tratada como ameaça; uma denúncia, como denúncia; uma demissão comprovadamente motivada por discriminação política, como tal. Compartilhar acusações sem verificação pode produzir novas injustiças justamente quando se pretende combater uma.
O debate público, entretanto, costuma abandonar esses cuidados. Basta aparecer um episódio para começar a disputa de arquivos: “Quando fizeram contra nós, ninguém reclamou”. Em seguida, vem a resposta do outro grupo, apresentando mais uma publicação antiga. E assim o país permanece preso à mesma discussão sobre quem começou.
Precisamos cobrar responsabilidade de quem continua alimentando esse comportamento.
O erro anterior não absolve o atual. Se uma campanha foi injusta contra um empresário bolsonarista, continua injusta quando dirigida a um comerciante petista. Se um trabalhador sofre pressão de um empregador de direita, isso precisa ser condenado. Se a pressão parte de alguém de esquerda, o critério deve permanecer exatamente o mesmo.
Essa coerência também precisa orientar a imprensa. Não é aceitável tratar a intimidação como mobilização legítima quando atinge um adversário e descobrir sua gravidade apenas quando alcança um aliado. O compromisso deve ser com a apuração dos fatos e com a liberdade das pessoas.
Uma empresa reúne muito mais do que a opinião de seu proprietário. Há funcionários com diferentes votos, fornecedores, prestadores de serviços e famílias que dependem daquela atividade. Quando o objetivo passa a ser arruinar alguém por sua preferência eleitoral, os efeitos podem alcançar pessoas que sequer participaram da discussão.
No pequeno comércio, essa realidade é ainda mais próxima. O dono da padaria atende moradores de todas as posições políticas. A cabeleireira recebe clientes que discordam entre si. O mecânico conserta o carro de quem votou na esquerda, na direita ou em ninguém. Transformar essas relações em trincheiras eleitorais enfraquece a convivência e ameaça a economia da própria comunidade.
Que imagem oferecemos ao mundo quando a disposição para trabalhar e negociar com alguém depende de descobrir em quem essa pessoa votou? Um país que pretende ser respeitado precisa demonstrar maturidade para atravessar uma eleição e continuar produzindo, negociando e convivendo.
A intolerância representa um atraso cívico. Revela uma dificuldade profunda de aceitar que milhões de brasileiros podem pensar de maneira diferente sem se tornarem inimigos.
Respeitar essa diferença não significa abandonar convicções, deixar de fiscalizar o governo ou suspender críticas. Significa compreender que o adversário continuará sendo nosso vizinho, colega de trabalho, cliente ou empregador depois da apuração.
O Brasil tem problemas demais para transformar cada compra em um teste de fidelidade partidária. Precisamos de emprego, renda, saúde, educação e segurança. Nenhuma dessas necessidades será resolvida pela satisfação de ver o comércio de um adversário vazio ou um trabalhador angustiado com a possibilidade de perder seu sustento.
Acabou a eleição. O direito de discordar permanece. A obrigação de respeitar também.
Que a esquerda condene a perseguição quando ela parte da esquerda. Que a direita faça o mesmo quando parte da direita. E que ambos abandonem a desculpa de que o erro do outro concede autorização para repetir o próprio.
O Brasil precisa seguir em frente. Não haverá avanço enquanto tentarmos cobrar nas portas do comércio e no emprego das pessoas a conta de uma eleição.