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Por Décio Baixo Alves
André Janones teve uma ideia que seus aliados provavelmente consideraram iluminada: convocar os apoiadores de Lula a vestir verde e amarelo e publicar fotografias fazendo o “L”. A mobilização, anunciada na sexta-feira, 16 de outubro, ganhou as redes neste sábado, com a participação do próprio presidente, candidato à reeleição. A intenção era disputar símbolos nacionais fortemente associados ao bolsonarismo. Na minha avaliação, porém, a iniciativa oferece à oposição uma ironia pronta: o PT mudou a camisa, mas continua com o mesmo projeto político.
Antes de apresentar Janones como “grande especialista em conquistar eleitores“, convém olhar seu próprio desempenho nas urnas. Em 2022, recebeu 238.967 votos para deputado federal por Minas Gerais. Agora, em 2026, foi reeleito pela Rede com 78.780. São 160.187 votos a menos, uma queda de aproximadamente dois terços. Preservou a cadeira pela federação PSOL/Rede, mas saiu da eleição com uma votação pessoal muito menor. É um contraste incômodo para quem ocupa tamanho espaço na estratégia digital de uma campanha presidencial.
Isso não impede ninguém de formular uma boa ideia. Recomenda, contudo, alguma modéstia antes de vender mobilização virtual como demonstração de genialidade eleitoral.
Há ainda uma mudança de discurso que merece ser lembrada. Em entrevista ao Estado de Minas, publicada em 5 de junho de 2022, Janones chamou o PT de “essa quadrilha que assaltou o Brasil por 14 anos”, ao acusar o partido de aparelhar o Estado e beneficiar aliados. Hoje, o mesmo parlamentar organiza o “Exército do Lula” e convoca apoiadores a vestir verde e amarelo fazendo o “L”. O antigo acusador tornou-se um entusiasmado defensor. Mudar de posição é um direito; explicar uma guinada dessa dimensão é uma responsabilidade diante do eleitor. Antes de ensinar a militância a trocar de camisa, Janones deveria explicar o que mudou em sua avaliação sobre aqueles que atacava com tamanha contundência.
A bandeira brasileira e a camisa da Seleção pertencem a todos os brasileiros. Petistas, bolsonaristas e eleitores de qualquer outra corrente têm o mesmo direito de usá-las. A crítica está na conveniência eleitoral de transformar essa escolha em operação coordenada de comunicação, justamente na reta final de uma disputa apertada.
Uma fotografia de amarelo não responde às dúvidas sobre o governo. Não explica decisões, não apresenta resultados e não substitui propostas. Para o eleitor que ainda procura razões para escolher seu candidato, a mudança de figurino pode parecer apenas isso: uma mudança de figurino e contradições.
Há também um risco visual que o entusiasmo dos organizadores parece ignorar. Depois de anos de associação entre manifestações bolsonaristas e o verde e amarelo, multiplicar essas cores pode reforçar, numa leitura rápida das redes, uma estética que o adversário já utiliza. O gesto do “L” procura estabelecer a diferença, evidentemente. Mas a campanha passa a depender de que o público observe o detalhe que acompanha a camisa.
Depois dessa “pérola” de Janones a oposição não perdoou: pipocaram nas redes sociais relatos e vídeos da incoerência dessa mudança de figurino dos petistas. Até um vídeo de Bebel Gilberto, sobrinha de Chico Buarque e filha de João Gilberto com Miúcha pisando numa bandeira brasileira foi resgatado pelos internautas bolsonaristas. Charges e gozações em relação a mudança de tom dos eleitores de Lula foi mais divulgado do que simpatizantes do atual governo vestindo a camisa do Brasil provando que essa tática realmente é um erro que pode virar a cereja do bolo para a vitória de Flávio Bolsonaro no próximo dia 25.
É nesse sentido que considero a estratégia um tiro no pé para não dizer uma burrice enorme: Janones pretende disputar a identidade visual da oposição, mas pode acabar ampliando sua presença simbólica. Trata-se de uma interpretação política, não de um efeito eleitoral já demonstrado.
A mesma cautela vale para o entusiasmo com curtidas e compartilhamentos. Uma mobilização pode reunir milhares de apoiadores e, ainda assim, permanecer restrita a pessoas que já estavam convencidas. Vestir de amarelo quem já votaria em Lula não significa conquistar um único voto novo.
Para mim, a pressa em transformar uma troca de roupa em acontecimento político transmite ansiedade e desespero eleitoral. O eleitor indeciso precisa ser persuadido por argumentos, pela avaliação do governo e pela confiança no futuro. Uma sequência de fotografias pode chamar sua atenção; conquistar sua confiança exige mais.
Janones conseguiu colocar aliados na mesma paleta de cores. Resta demonstrar que conseguiu aproximar do presidente quem ainda não pretendia votar nele. Por que com tanto verde e amarelo a possibilidade em trazer indecisos para a oposição é muito maior.
Por enquanto, a frase que melhor resume a fragilidade dessa aposta é simples: trocar a camisa é fácil. Difícil é mudar a avaliação do eleitor. Janones tornou-se o camisa 10 da campanha bolsonarista.
E clique aqui para assitir a entrevista de Janones onde ele critica o PT