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A história do Monte Serrat, conhecido como Morro da Caixa, no Centro de Florianópolis, passa pelas mãos de mulheres que lavavam, passavam, cozinhavam e cuidavam de seus vizinhos. Mais do que garantir o sustento das famílias, as lavadeiras tiveram papel fundamental na construção da comunidade e na preservação de seus vínculos.
A formação da comunidade tem raízes anteriores à década de 1920, ligadas à presença de pessoas negras escravizadas, libertas e de trabalhadores pobres. A ocupação ganhou novo impulso com as intervenções urbanas e sanitárias na região do Rio da Bulha, onde hoje fica a Avenida Hercílio Luz. Sob a política de higienização da cidade, famílias negras foram afastadas da região central, e parte delas encontrou nas encostas do morro um lugar para morar e continuar trabalhando.
Entre essas pessoas estavam as lavadeiras. A existência de fontes e cursos d’água no morro permitiu que elas mantivessem o ofício, atendendo famílias da cidade. O trabalho era uma das principais formas de sustento e ajudou a criar condições para a permanência dos moradores naquele território.
Trabalho, cuidado e liderança feminina
Nas memórias compartilhadas sobre o Monte Serrat, aparecem famílias como Cardoso, Veloso, Barbosa e Silva. Também são lembradas mulheres como Toneta de Barro e dona Ulda Gonzaga, referências de uma trajetória marcada pela força feminina.
A atuação dessas mulheres ia além dos tanques e das roupas estendidas. Muitas também eram passadeiras, cozinheiras, rezadeiras e benzedeiras. Quando alguém adoecia, eram elas que frequentemente acolhiam e ofereciam cuidados, compartilhando conhecimentos transmitidos entre gerações.
Enquanto muitos homens saíam para trabalhar na pesca ou em atividades como pintura e serviços de encanamento, as mulheres conciliavam o trabalho remunerado com as tarefas domésticas e a criação dos filhos. Entre as personagens lembradas está dona Mariazinha, reconhecida na memória local por seus quitutes.
O relato sobre essas trajetórias resume a importância que elas tiveram: “A mulher era a cabeça da comunidade”. Sua liderança se expressava no sustento da casa, na organização do cotidiano e na ajuda a quem precisava.
Contar a história das lavadeiras é reconhecer que o Monte Serrat foi construído também por essas mulheres. Seus nomes, ofícios e saberes fazem parte da memória de Florianópolis e ajudam a compreender a presença e a contribuição da população negra na formação da capital.