Mostrar mais resultados...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Mostrar mais resultados...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
No data was found

O tiro no pé de Eduardo Paes que prova do próprio veneno

Coligação tentou barrar Garotinho e restringir sua campanha; agora, a exclusão dos votos do adversário abre caminho para Douglas Ruas vencer no primeiro turno

Colunista

Brasil

Logo Jornais em Foco

Jornais em Foco

Foto: Eduardo Paes (personagem da charge) enfrenta o efeito contrário da estratégia de sua coligação contra Anthony Garotinho e literalmente dá um tiro no próprio pé

Por Décio Baixo Alves

Na política, certas estratégias parecem brilhantes até a abertura das urnas. Eduardo Paes, candidato do PSD ao governo do Rio de Janeiro, acaba de experimentar uma dessas lições: a tentativa de retirar um adversário da disputa pode terminar favorecendo outro e deixando o autor da iniciativa pelo caminho.

A coligação de Paes não economizou nos pedidos contra Anthony Garotinho, do Republicanos. Foi à Justiça Eleitoral para impugnar sua candidatura, solicitar a suspensão de recursos do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário e impedir sua participação no horário gratuito de rádio e televisão. Buscou atingir tanto o registro quanto os instrumentos necessários para fazer campanha.

Os pedidos tinham fundamentos jurídicos relacionados à condenação de Garotinho por improbidade administrativa. Mas também havia uma consequência eleitoral bastante conveniente para Paes: retirar da disputa um concorrente que poderia dificultar sua vitória.

Em 2 de outubro, a Folha registrou que uma manifestação da coligação de Paes antecedeu a decisão de Floriano Marques de considerar nulos os votos de Garotinho. Naquele momento, o cenário do Datafolha indicava que a exclusão desses votos poderia levar Paes acima dos 50% necessários para vencer no primeiro turno. A conta parecia promissora para o candidato do PSD.

Só faltava combinar com o eleitor.

Quando as urnas foram abertas, quem apareceu na frente foi Douglas Ruas, do PL, com 49,27%. Paes ficou em segundo, com 42,76%. Garotinho recebeu 274.411 votos. O mecanismo que poderia favorecer Paes passou a ameaçar sua continuidade na disputa: excluídos os votos de Garotinho, Ruas ultrapassa a maioria absoluta.

A ironia ganhou força quando Garotinho, depois da eleição, desistiu do recurso que buscava validar sua candidatura. Ele havia recorrido e disputado sob condição judicial provisória; posteriormente, decidiu abandonar esse recurso. Foi então que a coligação de Paes passou a pedir que a desistência não fosse aceita e que os votos permanecessem no cálculo do primeiro turno.

Antes, Garotinho era um candidato cuja participação precisava ser barrada. Depois, seus votos tornaram-se indispensáveis à sobrevivência eleitoral de Paes.

A nova tese tinha uma peculiaridade reveladora: a coligação continuava querendo o indeferimento da candidatura de Garotinho, mas defendia preservar seus votos exclusivamente para calcular a maioria absoluta. Garotinho não poderia vencer; seus eleitores, porém, deveriam ajudar a manter Paes na disputa.

É difícil imaginar retrato mais claro de uma estratégia que voltou contra quem a patrocinou. O adversário que se pretendia enfraquecer acabou no centro de uma conta capaz de encerrar a eleição em benefício de Ruas.

Nesta quinta-feira, 8 de outubro, o TSE decidiu, por cinco votos a dois, excluir os votos de Garotinho e determinar a retotalização. Com isso, Ruas deve superar os 50% dos votos válidos e vencer no primeiro turno. A proclamação oficial ainda depende do TRE-RJ.

Não seria correto atribuir todo esse resultado exclusivamente à ação de Paes: houve uma condenação anterior, decisões judiciais e o julgamento do TSE. Mas a contradição política permanece. Sua coligação combateu a candidatura de Garotinho e, depois de conhecer o resultado, passou a defender o aproveitamento dos votos daquele mesmo adversário.

Paes tem o direito de recorrer. O eleitor também tem o direito de perceber que o discurso sobre o destino desses votos mudou quando mudou o beneficiário da conta.

A exclusão que parecia oferecer um atalho ao Palácio Guanabara tornou-se uma ameaça de saída antecipada da disputa. Na linguagem popular, Paes está provando do próprio veneno.

Tentou fechar a porta para Garotinho e pode ter acabado fechando a sua própria. O tiro no pé veio acompanhado de uma lição: quem monta a estratégia contando com a vitória precisa considerar que as urnas podem entregar o primeiro lugar a outro.