Mostrar mais resultados...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Mostrar mais resultados...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
No data was found

O fenômeno chamado Nikolas Ferreira

A força eleitoral do deputado mineiro ultrapassou fronteiras e chegou a Biguaçu, onde apoiou Bia Borba, segunda mais votada para deputada federal no município

Colunista

Biguaçu

Logo Jornais em Foco

Jornais em Foco

Foto: Nikolas apoio Bia Borba de Biguaçu que teve mais de 52 mil votos para deputada federal

Por Décio Baixo Alves — Jornais em Foco

Nikolas Ferreira é um fenômeno eleitoral. A afirmação encontra respaldo nos números, na capacidade de comunicação e na rede de lideranças que ajudou a projetar pelo Brasil. Concorde-se ou não com suas posições, sua trajetória demonstra que a política brasileira passa por uma transformação que os partidos e os candidatos tradicionais precisam compreender.

Depois de exercer o mandato de vereador em Belo Horizonte, Nikolas foi eleito deputado federal por Minas Gerais, em 2022, com 1.492.047 votos, tornando-se o candidato mais votado do Brasil para a Câmara naquele pleito. Em 2026, mais que dobrou esse resultado: conquistou 3.119.318 votos e tornou-se o deputado federal mais votado da história do país.

O recorde impressiona, mas não explica sozinho a dimensão desse fenômeno. Nikolas deixou de ser uma liderança restrita ao seu estado. Sua imagem passou a integrar campanhas de candidatos em diferentes regiões, associando sua popularidade a uma nova geração de políticos conservadores.

Em Minas Gerais, segundo o balanço apresentado pelo próprio parlamentar depois da eleição, sete dos nove candidatos que apoiou diretamente para deputado estadual foram eleitos. O resultado mostra uma capacidade de articulação que vai além da votação pessoal.

Na disputa federal, sua contribuição também teve peso matemático. Seus mais de três milhões de votos corresponderam a aproximadamente 14,53 quocientes eleitorais. Esse volume ajudou a sustentar 14 cadeiras do PL em Minas Gerais: a dele e outras 13. Ao todo, o partido elegeu 21 deputados federais pelo estado.

A expressão “puxou outros 13” resume a dimensão de sua votação, mas exige precisão. As cadeiras pertencem ao resultado coletivo do partido, que inclui os votos dos demais candidatos e da legenda. Não é possível afirmar que exatamente 13 parlamentares perderiam sem Nikolas. O que se pode afirmar é que sua votação representou uma contribuição extraordinária para a bancada federal do PL mineiro.

Também são mecanismos diferentes: o apoio aos estaduais depende da influência política e da campanha; os votos recebidos por Nikolas para deputado federal entram exclusivamente no cálculo da eleição federal.

Fora de Minas Gerais, os exemplos se multiplicam. Lucas Pavanato, apoiado por Nikolas, foi eleito deputado federal por São Paulo com 3.038.438 votos, a segunda maior votação da história para o cargo. Também receberam seu apoio candidatos como André Fernandes, eleito deputado federal pelo Ceará; Guilherme Kilter, eleito deputado federal pelo Paraná; e Lucas Polese, eleito deputado federal pelo Espírito Santo.

A rede alcançou ainda Thiago Medina, eleito deputado federal por Pernambuco com 88.354 votos, e Júlia de Castro, eleita deputada federal pelo Rio de Janeiro com 103.880 votos. Entre os estaduais, aparecem Felipe Sertanejo, em São Paulo; Cabo Bebeto, em Alagoas; Ulysses Moraes, em Mato Grosso; Marquinho, em Goiás; e Daverson Matos, em Mato Grosso do Sul.

Nem todas as indicações se converteram em mandato. Hiago Morandi, do Novo, recebeu 68.542 votos para deputado federal no Rio Grande do Sul e ficou como primeiro suplente. Cassy Monteiro, do PL, somou 44.865 votos em Mato Grosso do Sul e terminou na primeira suplência do partido para a Câmara Federal. Os casos demonstram tanto o alcance dessa rede quanto os limites de qualquer apoio nacional diante das condições de cada um.

O apoio de Nikolas não explica sozinho essas votações. Cada candidato possui sua trajetória, sua campanha e sua base. Ainda assim, o conjunto revela uma liderança capaz de emprestar visibilidade, estabelecer conexões e mobilizar públicos em diferentes estados.

Sua principal ferramenta é a comunicação. Nikolas compreendeu que o eleitor não espera mais o horário eleitoral para conhecer um candidato. A relação acontece diariamente pelo celular, nos vídeos compartilhados, nos comentários e nos grupos de mensagens.

Ele fala de maneira direta, apresenta posições reconhecíveis e consegue dialogar com uma parcela expressiva da juventude. Mesmo quando aborda temas nacionais, utiliza uma linguagem que seus seguidores percebem como próxima. Essa identificação ajuda a transformar audiência em mobilização.

Um vídeo gravado com um celular pode alcançar repercussão que estruturas caras de comunicação têm dificuldade para produzir. Isso não significa ausência de equipe, planejamento ou investimento. Significa que dinheiro e estrutura, sozinhos, não compram a capacidade de estabelecer uma relação com o público.

Na minha avaliação, essa é uma das razões pelas quais Nikolas incomoda tanto o governo Lula. Seus vídeos conseguem colocar críticas à gestão federal no centro do debate, exigindo respostas e alterando a agenda da comunicação governista.

O confronto com o presidente e a primeira-dama, na reta final da campanha, ilustra esse mecanismo. Lula chamou Nikolas de “canalha”, enquanto Janja utilizou a expressão “piá de bosta”. O episódio ocorreu após a circulação de um recorte de uma fala presidencial sobre exames preventivos, que a campanha de Lula afirmou ter sido descontextualizado.

Considero que recorrer à ofensa pessoal foi um erro político. O presidente e a primeira-dama ampliaram a exposição de um adversário que já dominava a comunicação com seus seguidores. O confronto ofereceu novo material para seus vídeos e levou a discussão para além do público que habitualmente acompanha o deputado.

Antes da eleição, escrevi que os ataques poderiam fortalecer Nikolas e ajudá-lo a alcançar uma votação recorde. O recorde veio. Não seria correto atribuir mais de três milhões de votos apenas a essa polêmica, porque sua força já estava construída. Na minha leitura, porém, o episódio acrescentou combustível a uma mobilização que já era intensa.

A trajetória de Nikolas também evidencia uma mudança no perfil dos candidatos competitivos. Trabalho de base, experiência administrativa e obras realizadas continuam importantes, mas passaram a dividir espaço com a capacidade de construir comunidades digitais e manter contato permanente com o eleitor.

Essa transformação aparece com força na direita e também alcança a esquerda. Ter seguidores não garante eleição. Entretanto, quando a audiência se transforma em confiança, identificação e disposição para votar, surge uma vantagem política que as estruturas tradicionais precisam levar a sério.

BIGUAÇU TAMBÉM SENTIU O ALCANCE DE NIKOLAS

Em Santa Catarina, Nikolas indicou Bia Borba, do Novo, para deputada federal em sua “colinha” eleitoral. Vereadora de Biguaçu, ela recebeu 52.770 votos no estado, mas não conquistou uma cadeira, ficando na suplência.

No município, Bia somou 4.456 votos e terminou como a segunda candidata mais votada para a Câmara dos Deputados, atrás de Júlia Zanatta, que recebeu 5.096.

Não há como identificar quantos votos vieram exclusivamente da indicação de Nikolas. Na minha avaliação, o apoio contribuiu para ampliar a visibilidade de Bia e associar sua candidatura a uma liderança nacional com forte identificação entre eleitores conservadores.

A atuação de Nikolas também ultrapassou as disputas parlamentares. Em Santa Catarina, suas recomendações incluíram Carol de Toni para o Senado, Jorginho Mello para o governo e Flávio Bolsonaro para a Presidência. Suas indicações revelam uma estratégia de participação no conjunto da eleição.

Agora, no segundo turno presidencial, sua capacidade de mobilização terá outro teste. Nikolas poderá manter seus seguidores engajados, disputar a interpretação dos acontecimentos e tentar alcançar eleitores ainda indecisos. O desafio será converter repercussão em convencimento.

Não há uma medida única que permita afirmar que seus vídeos tenham mais influência que uma rede de televisão ou uma campanha milionária. Mas seu desempenho mostra que a comunicação política deixou de depender exclusivamente desses meios. Uma liderança que conhece seu público e sabe transmitir sua mensagem pode competir com estruturas muito maiores.

Nikolas Ferreira reúne votação, audiência e capacidade de articulação. O recorde nas urnas demonstra sua força pessoal. Os candidatos apoiados mostram sua presença nacional. E o exemplo de Biguaçu revela como essa influência pode chegar a uma disputa ligada diretamente à realidade de um município.

O eleitor está com o celular na mão. Nikolas soube ocupar esse espaço e transformar comunicação em poder político. É por isso que o fenômeno chamado Nikolas Ferreira precisa ser compreendido por quem pretende disputar as próximas eleições.