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A eleição da tela: como as redes sociais mudaram o poder do voto no Brasil

Recordes de votação em 2026 mostram a força de lideranças que transformaram comunicação, identidade e presença digital em capital político

Colunista

Brasil

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Foto: Nikolas Ferreira, além de ser o mais votado do país, apoiou e elegeu outros deputados estaduais e federais pelo Brasil

Por Décio Baixo Alves 

As eleições de 2026 deixam uma mensagem clara: a internet mudou profundamente o caminho entre um candidato e o eleitor. As redes sociais passaram a ocupar um espaço que antes dependia de décadas de atuação política, estruturas partidárias, lideranças comunitárias e exposição nos meios tradicionais de comunicação.
Durante muito tempo, conquistar uma votação expressiva exigia uma longa construção. O sindicalista crescia representando trabalhadores. O empresário ganhava reconhecimento por sua atuação econômica. O prefeito construía sua liderança com obras, serviços e presença nos bairros. O deputado buscava consolidar bases, atender municípios e apresentar resultados. Havia também o peso das famílias políticas, das celebridades e das máquinas eleitorais.
Esse caminho continua existindo. Mas agora divide espaço com outra forma de construir liderança: a capacidade de entrar diariamente na vida de milhões de pessoas por uma tela de celular.
Um vídeo pode apresentar um candidato a eleitores que nunca ouviriam seu nome em uma reunião partidária. Uma transmissão ao vivo pode criar proximidade. Uma fala compartilhada milhares de vezes pode projetar uma liderança municipal para muito além das fronteiras de sua cidade. A comunicação deixou de ser apenas uma ferramenta da campanha e passou a ser parte central da própria construção política.
Nikolas Ferreira é um dos exemplos mais expressivos dessa transformação. Aos 30 anos, o deputado federal mineiro foi novamente o mais votado do Brasil, com mais de 3,1 milhões de votos. Lucas Pavanato, de São Paulo, aos 28 anos, ultrapassou igualmente os três milhões. Os dois superaram o recorde anterior de votação para a Câmara dos Deputados, pertencente a Eduardo Bolsonaro desde 2018. Portal da Câmara dos Deputados
São números que chamam atenção pela dimensão e pela velocidade com que essas lideranças ampliaram sua projeção. Eles mostram que o domínio da linguagem digital pode acelerar uma trajetória política que, em outros tempos, dependeria de muitos anos de exposição pública.
Entre os deputados federais com votações expressivas em 2026, aparecem vários nomes conhecidos também pela comunicação nas redes:

Candidato                           Estado               Votos
Nikolas Ferreira                   Minas Gerais      3.119.318
Lucas Pavanato                    São Paulo          3.038.438
Erika Hilton                          São Paulo          1.596.472
André Fernandes                 Ceará                 684.732
Sâmia Bomfim                     São Paulo          583.107
Júlia Zanatta                        Santa Catarina   560.223
Kim Kataguiri                       São Paulo          520.071
Tabata Amaral                      São Paulo          476.383

Os números foram divulgados pela Agência Brasil após o primeiro turno. A relação reúne exemplos relevantes para esta análise, sem atribuir toda a votação de cada candidato à internet. Agência Brasil
O fenômeno tem grande expressão na direita, mas também aparece na esquerda. Erika Hilton, Sâmia Bomfim e outros parlamentares mostram que a capacidade de mobilização digital atravessa posições ideológicas. O que muda são as pautas, os públicos e a maneira de comunicar.

Na minha avaliação, uma das principais vantagens dessas lideranças é saber transformar temas políticos em mensagens compreensíveis, reconhecíveis e fáceis de compartilhar. Elas falam diretamente à câmera, respondem aos acontecimentos rapidamente e mantêm contato frequente com seus públicos. Algumas demonstram desenvoltura semelhante à de apresentadores e atores de televisão.

Essa presença constante produz familiaridade. O eleitor pode nunca ter encontrado determinado candidato, mas acompanha sua rotina, conhece suas opiniões e sente que participa de sua caminhada. A distância física perde importância diante da proximidade criada pela comunicação.

Em Santa Catarina, os resultados também revelam essa mudança. Júlia Zanatta foi reeleita deputada federal com 560.223 votos. Ana Campagnolo liderou a votação para a Assembleia Legislativa, com 387.523 votos. São duas lideranças cuja projeção pública está fortemente associada à defesa de posições políticas e à comunicação com seus apoiadores.

Biguaçu oferece um exemplo especialmente significativo. A vereadora Bia Borba, de 21 anos, recebeu 52.770 votos na disputa para deputada federal. Contou com apoio público de Nikolas Ferreira, mas não conquistou uma cadeira: o Novo elegeu apenas Gilson Marques em Santa Catarina. Sua votação demonstra capacidade de expansão política, ao mesmo tempo que lembra que uma votação individual expressiva precisa ser analisada dentro das regras da eleição proporcional.

É preciso observar esse caso com atenção. Uma liderança jovem de um município da Grande Florianópolis conseguiu apresentar seu nome a dezenas de milhares de eleitores pelo estado. A circulação de mensagens e a associação com lideranças nacionais oferecem possibilidades de alcance que antes seriam muito mais difíceis de construir.

Outra transformação está na transferência de apoio. Uma liderança de grande audiência consegue recomendar candidatos de diferentes estados e apresentar esses nomes a seu público. Nikolas, por exemplo, divulgou indicações para várias disputas, incluindo Ana Campagnolo e Bia Borba em Santa Catarina. A rede de influência política passa a atravessar fronteiras municipais e estaduais com facilidade.

Enquanto isso, políticos experientes enfrentam uma cobrança nova. O eleitor precisa conhecer o trabalho realizado, compreender sua importância e perceber uma ligação entre esse trabalho e suas próprias preocupações. Um currículo extenso, sozinho, não assegura essa conexão.

A derrota de Esperidião Amin na disputa ao Senado catarinense ilustra os limites do peso de uma trajetória consolidada. As duas vagas ficaram com Carol de Toni e Carlos Bolsonaro. O resultado permite refletir sobre a mudança nas referências do eleitorado, embora não seja possível atribuir uma derrota exclusivamente às redes sociais: alianças, partidos, conjuntura e preferências políticas também interferem.

A família Bolsonaro representa outro capítulo desse fenômeno. Carlos foi eleito senador por Santa Catarina; Michelle, senadora pelo Distrito Federal; Jair Renan, deputado federal por Santa Catarina; e Renato Bolsonaro, deputado federal por São Paulo. Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno presidencial contra Lula.

Jair Renan recebeu 131.555 votos em Santa Catarina, enquanto Renato conquistou 379.312 em São Paulo. Esses resultados mostram a força eleitoral de um sobrenome que se tornou uma referência política nacional.

Mesmo afastado das urnas e sob prisão domiciliar, Jair Bolsonaro permaneceu como uma influência importante para esse grupo. Sua imagem, suas posições e sua ligação com os apoiadores continuaram circulando. Isso ajuda a compreender como uma liderança pode preservar alcance político mesmo com limitações à atuação pessoal.

Seria precipitado, porém, tratar a eleição presidencial como decidida ou explicar todos esses resultados apenas pela internet. O sobrenome, a identificação ideológica, a estrutura partidária e a mobilização dos apoiadores também contam. As redes ampliam e conectam essas forças.

Há ainda uma distinção necessária: seguidores, visualizações e votos são medidas diferentes. Uma pessoa pode acompanhar um político por curiosidade ou discordância. Uma publicação pode alcançar milhões sem produzir confiança suficiente para uma escolha eleitoral. O êxito está em transformar atenção em identificação e identificação em participação.

Também seria injusto concluir que toda liderança jovem carece de trabalho político. Algumas já passaram por câmaras municipais, exercem mandatos e organizam sua atuação em torno de pautas definidas. A diferença é que sua visibilidade pode crescer muito antes de acumularem uma trajetória comparável à de políticos veteranos.

O desafio que vem depois da eleição permanece o mesmo: representar a população, fiscalizar, legislar e entregar resultados. Uma campanha eficiente abre as portas do poder. O mandato revela o que o eleito consegue fazer com ele.

A internet ampliou as oportunidades de participação e permitiu o surgimento de novas vozes. Também tornou a disputa pela atenção mais intensa, favorecendo mensagens rápidas, conflitos e exposição permanente. Cabe ao eleitor aproveitar essa proximidade para cobrar mais, acompanhar melhor e examinar o trabalho de quem ajudou a eleger.

As urnas de 2026 mostram que a política brasileira mudou. O palanque cabe no celular, a liderança pode nascer longe das estruturas tradicionais e uma mensagem atravessa o país em poucos minutos. Quem pretende representar a sociedade precisa entender essa realidade.
O voto continua exigindo confiança. O que se transformou foi a maneira de construí-la.