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Por Décio Baixo Alves
Em toda eleição brasileira, a cena se repete. Um candidato decide não comparecer ao debate e, imediatamente, seus adversários exploram a ausência. Filmam a cadeira vazia, chamam o ausente de “fujão”, questionam o que ele teria a esconder e tentam convencer o eleitor de que quem pretende governar não pode fugir do confronto de ideias.
Os adversários fazem o papel deles. E fazem corretamente ao cobrar explicações. Mas existe algo ainda mais grave do que a ausência do candidato: o fato de ainda ser necessário explicar ao eleitor brasileiro por que faltar a um debate é tão sério. Em uma democracia politicamente madura, a cadeira vazia deveria falar por si mesma.
Quem se candidata à Presidência da República, ao governo de um Estado, a uma prefeitura ou a qualquer cargo relevante está pedindo autorização da população para tomar decisões que afetarão milhões de pessoas. Está pedindo confiança, voto e poder.
Como alguém pode querer tudo isso e, ao mesmo tempo, escolher quando estará disposto a responder perguntas?
O debate eleitoral não deveria ser encarado como um favor que o candidato presta à imprensa, à emissora organizadora ou aos adversários. É uma prestação de contas antecipada ao eleitor. É ali que o candidato precisa apresentar propostas, defender suas ideias, explicar contradições, responder críticas e demonstrar se possui equilíbrio, conhecimento e capacidade para enfrentar situações adversas.
Governar não acontece dentro de uma bolha. Um prefeito encontrará oposição. Um governador enfrentará crises. Um presidente será questionado diariamente. Quem deseja ocupar um cargo dessa dimensão precisa estar preparado para ouvir perguntas desagradáveis, enfrentar críticas e defender publicamente aquilo em que acredita. Por isso, quando um candidato deliberadamente foge de um debate, o eleitor deveria fazer uma pergunta muito simples:
Se ele não consegue ou não quer enfrentar perguntas durante uma campanha eleitoral, por que deveria receber poder para governar depois dela?
O que impressiona no Brasil é justamente o contrário. Há eleitores que encontram justificativa para tudo.
“Ele não precisa ir.” “Só vão atacá-lo.” “O debate não serve para nada.” “Ele já está ganhando.” “Não deve satisfação aos adversários.” E, em alguns casos, ainda transformam a ausência em demonstração de inteligência ou estratégia. É nesse momento que aparece uma das maiores fragilidades da nossa cultura política.
Porque o candidato não deve satisfação apenas aos adversários. Ele deve satisfação ao eleitor.
O adversário pode até estar querendo derrotá-lo. A emissora pode desejar audiência. O jornalista pode fazer uma pergunta desconfortável. Nada disso modifica o ponto fundamental: quem pede voto precisa estar disposto a ser questionado. A cadeira vazia deveria representar um enorme custo eleitoral.
Não deveria ser necessário produzir vídeos cinematográficos mostrando o lugar desocupado. Não deveria ser preciso realizar campanhas dizendo que determinado candidato “fugiu”. O eleitor politicamente consciente deveria olhar aquela ausência e tirar sozinho as suas conclusões. Esse talvez seja o ponto mais incômodo da discussão. Criticar somente o candidato é fácil.
Difícil é admitir que determinados comportamentos políticos continuam existindo porque uma parcela expressiva da população os aceita, relativiza ou até comemora. Político nenhum cria sozinho uma cultura política ruim. Ele sobrevive porque encontra eleitor disposto a legitimá-la.
Quando o cidadão passa a tratar seu candidato como integrante de uma torcida organizada, desaparece a cobrança. Se o adversário falta ao debate, é covarde.
Se o seu candidato falta, é estrategista. Se o adversário se recusa a responder, está escondendo alguma coisa. Se o seu candidato faz exatamente a mesma coisa, está evitando uma “armadilha”.
Essa lógica é devastadora para qualquer democracia. O voto não pode ser uma procuração em branco concedida ao político de estimação. Democracia exige exatamente o contrário: cobrança permanente, inclusive, e principalmente daquele em quem pretendemos votar.
Quanto maior a responsabilidade pretendida pelo candidato, maior deveria ser sua obrigação de aparecer, explicar-se e enfrentar o contraditório. O Brasil precisa amadurecer politicamente a ponto de uma ausência injustificada em um grande debate não precisar ser explorada durante uma semana inteira pelos adversários. A própria sociedade deveria impor o preço eleitoral.
Evidentemente existem situações excepcionais: doença, emergência familiar ou algum impedimento realmente incontornável. Estamos falando aqui da ausência política deliberada, daquela estratégia calculada de não comparecer porque determinado candidato entende que participar poderá lhe causar mais prejuízo do que benefício.
Esse cálculo somente funciona porque existe eleitor disposto a aceitá-lo. E é justamente aí que está nossa responsabilidade. Queremos políticos melhores? Precisamos também ser eleitores melhores. Queremos candidatos que respeitem a população?
Precisamos deixar de premiar aqueles que se escondem dela. Queremos uma democracia madura?
Então temos de abandonar a mentalidade de torcida e compreender que político não é ídolo, salvador, mito ou propriedade de grupo algum. É um servidor público em busca de autorização popular para exercer poder. E quem pretende exercer poder precisa responder perguntas. Todas elas. Inclusive as difíceis.
Talvez chegue o dia em que, no Brasil, mostrar uma cadeira vazia em um debate seja desnecessário. O eleitor verá aquela cadeira e entenderá imediatamente o que ela significa. Até lá, infelizmente, continuaremos assistindo ao espetáculo absurdo de candidatos fugindo do debate e parte da população aplaudindo a fuga.
A cadeira vazia é uma vergonha para o candidato. Mas o aplauso à cadeira vazia é um problema muito maior para o Brasil.