Mostrar mais resultados...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Mostrar mais resultados...

Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Os "bois de piranha" de Donald Trump

Se havia uma ameaça suficientemente séria para retirar secretamente o presidente dos Estados Unidos do Air Force One, por que jornalistas, funcionários e integrantes da comitiva permaneceram a bordo sem sequer saber do risco?

Colunista

Mundo

Logo Jornais em Foco

Jornais em Foco

No data was found
Foto: Trump e seus "bois de piranha"

Por Décio Baixo Alves

Existe no Brasil uma expressão popular perfeita para determinadas situações: “boi de piranha”. É aquele que é colocado na água para atrair o perigo enquanto os demais atravessam em segurança.

É difícil encontrar expressão mais adequada para definir as perguntas que surgem depois da revelação sobre a operação montada para retirar secretamente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, do avião em que todos acreditavam que ele viajaria.

Segundo informações divulgadas pela imprensa americana, autoridades de segurança consideraram suficientemente séria uma ameaça contra Trump para organizar uma verdadeira operação de despistamento. O presidente embarcou publicamente no Air Force One, mas depois foi retirado discretamente e levado para outra aeronave.

Até aí, podemos compreender perfeitamente. O presidente dos Estados Unidos é uma das pessoas mais protegidas do planeta. Se os serviços de inteligência detectam uma ameaça real contra sua vida, evidentemente precisam agir.

A questão gravíssima começa depois. Se havia perigo suficiente para tirar Trump daquele avião, por que jornalistas, funcionários da Casa Branca e outras pessoas continuaram nele sem saber o que estava acontecendo? Que espécie de protocolo de segurança é esse?

A vida do presidente vale e a vida de quem estava dentro do avião vale menos? Se a aeronave fazia parte de uma estratégia para confundir um eventual agressor, é inevitável perguntar se aquelas pessoas não foram transformadas, na prática, em bois de piranha de uma operação presidencial.

E isso é extremamente sério. Não estamos falando de voluntários que receberam informações sobre o risco e decidiram participar de uma operação. Estamos falando de pessoas que, segundo as reportagens publicadas sobre o episódio, sequer sabiam que Trump havia deixado a aeronave.

Enquanto elas acreditavam estar acompanhando o presidente dos Estados Unidos, o presidente estava em outro avião.

Imagine a situação. Existe informação de uma possível tentativa de atentado. Os responsáveis pela segurança consideram essa informação grave o suficiente para retirar secretamente o principal alvo da aeronave. Monta-se uma operação para enganar quem eventualmente estivesse planejando o ataque.

Mas o avião que poderia ser identificado pelos criminosos como aquele que transportava o presidente continua voando. E dentro dele existem seres humanos. Jornalistas. Funcionários. Tripulantes. Integrantes do próprio governo americano. É justamente aí que o episódio ultrapassa a discussão sobre a proteção de Donald Trump e entra numa questão muito maior: qual é o limite moral de uma operação de segurança de Estado?

Proteger o presidente é obrigação do governo americano. Mas proteger o presidente não pode significar tratar outras vidas como descartáveis. Uma democracia que se orgulha de suas instituições deveria dar explicações públicas e transparentes sobre o que aconteceu. Quem decidiu manter aquelas pessoas naquela aeronave?

Qual era exatamente a avaliação de risco? As pessoas a bordo foram efetivamente colocadas em perigo adicional pela operação de despistamento? Quais medidas foram tomadas para proteger o avião que continuou viagem?

Essas perguntas precisam ser respondidas. Inclusive porque há uma diferença enorme entre proteger informações estratégicas durante uma operação e esconder das próprias pessoas envolvidas que elas estavam participando dela.

Se posteriormente ficar demonstrado que passageiros foram submetidos conscientemente a um risco adicional sem consentimento e sem necessidade operacional justificável, é natural que se discuta também a eventual responsabilidade jurídica do Estado americano. Caberá aos tribunais e às autoridades competentes determinar se existe fundamento para indenizações ou outras responsabilizações.

O que não se pode fazer é simplesmente tratar o episódio como uma curiosidade de bastidor. Não é. É uma questão de Estado. Donald Trump confirmou que houve preocupação de segurança e que seguiu recomendações do Serviço Secreto e dos militares. Isso torna ainda mais necessária uma explicação sobre o tratamento dispensado às demais pessoas.

Porque existe uma pergunta elementar que nenhuma operação sofisticada consegue apagar: se era perigoso demais para o presidente permanecer naquele avião, por que era aceitável que todos os outros permanecessem?

Os Estados Unidos gostam de apresentar-se ao mundo como uma referência democrática, defensora das liberdades individuais, da imprensa e dos direitos dos cidadãos. Pois justamente por isso precisam responder. Democracia não significa apenas proteger o presidente.

Significa também reconhecer que a vida do jornalista, do funcionário público, do tripulante e de qualquer cidadão possui valor. Nenhuma estratégia de segurança deveria transformar seres humanos desinformados em peças descartáveis de um tabuleiro. Se houve uma ameaça, Trump tinha todo o direito de ser protegido. Mas os outros também tinham.

O presidente não pode ser salvo enquanto o restante é deixado para servir de boi de piranha. Essa é uma explicação que o governo dos Estados Unidos deve não apenas à imprensa americana.  Deve a todos que estavam naquele avião.