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Por Luiz Lunardelli
A literatura portuguesa perdeu um escritor. Santa Catarina perdeu um divulgador incansável de sua história e de sua cultura. A Academia de Letras de Biguaçu perdeu um de seus Imortais. E eu perdi um amigo.
Afonso Rocha era um homem difícil de resumir. Português de nascimento, catarinense de coração e cidadão do mundo por vocação, construiu uma trajetória marcada por experiências, viagens, conhecimento e muitas histórias.
Antes de se tornar escritor, foi marinheiro, viajante, jornalista, editor, palestrante, empresário, defensor da democracia e, acima de tudo, um grande contador de histórias.
Quando muitas pessoas começam a pensar em aposentadoria, Afonso decidiu iniciar uma nova jornada. Aos 67 anos, publicou seu primeiro livro. Depois dele, vieram muitos outros, como se desejasse recuperar o tempo em que as histórias ainda não haviam chegado ao papel.
Escreveu romances, poesias, ensaios históricos, crônicas e reflexões. Ao longo da vida, recebeu medalhas, troféus, diplomas, homenagens e comendas. Também integrou diversas academias literárias.
Entre elas, tivemos a alegria de compartilhar a mesma casa, como confrades da Academia de Letras de Biguaçu.
Mas nenhuma honraria era capaz de definir completamente Afonso Rocha.
O que verdadeiramente o definia era sua rara capacidade de transformar qualquer conversa em uma aula de história, uma boa gargalhada ou uma reflexão que permanecia na memória muito depois de o café terminar.
Nos últimos meses, nossas conversas passaram a contar com um personagem indesejado.
O câncer entrou sem pedir licença na vida dos dois. Recebemos o diagnóstico praticamente na mesma época. De repente, nossos diálogos passaram a incluir nomes de exames que ninguém gostaria de aprender, consultas médicas, hospitais, imunoterapias, efeitos colaterais e a constante expectativa pelos próximos resultados.
Mesmo assim, sempre havia espaço para uma piada.
Descobrimos juntos que a doença pode atacar o corpo, mas encontra enorme dificuldade para derrotar quem preserva o bom humor.
Desta vez, porém, meu amigo, você quebrou o combinado.
Embarcou antes de mim na viagem da qual nenhum de nós poderá escapar.
Não precisava ter tanta pressa.
Eu ainda contava com muitas conversas, alguns cafés e, principalmente, diversas discussões sobre livros, história e os absurdos do mundo.
Mas, conhecendo você, imagino que, ao chegar ao novo destino, já tenha perguntado onde fica a biblioteca, organizado uma roda de debates, corrigido algum erro histórico de São Pedro e convencido meia dúzia de anjos de que a eternidade também precisa de bons escritores.
Quanto a mim, continuo por aqui.
Ainda tenho alguns capítulos para escrever, batalhas para enfrentar e um tratamento para concluir. Continuo travando a mesma luta que, por coincidência ou capricho do destino, começou quase ao mesmo tempo que a sua.
Mais cedo ou mais tarde, quando Deus entender que chegou a minha hora, certamente voltaremos a nos encontrar, onde quer que seja.
Quando isso acontecer, prepare o café.
Tenho uma enorme lista de assuntos acumulados desde sua partida. Retomaremos nossas conversas exatamente de onde foram interrompidas: com bom humor, uma boa dose de ironia, discordâncias inteligentes e muitas risadas.
Afinal, se existe um lugar onde os verdadeiros escritores continuam vivendo, é justamente nas boas conversas.
Até lá, meu confrade.
Obrigado pela amizade, pelos livros, pelas ideias e pelo exemplo de que nunca é tarde para começar uma nova história.
Você partiu primeiro.
Mas tenho a impressão de que foi apenas para reservar uma boa mesa, próxima a uma estante cheia de livros, onde continuaremos conversando quando chegar a minha vez.
Até breve, Afonso.
Os homens passam.
Os escritores permanecem.
E os Imortais apenas mudam de endereço.