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Por Décio Baixo Alves
O recente relatório do Tribunal de Contas da União escancarou aquilo que muitos brasileiros já suspeitavam: o uso de aviões da Força Aérea Brasileira por autoridades virou sinônimo de privilégio, desperdício e falta de transparência. Em um país onde faltam recursos para saúde, educação e infraestrutura, é inadmissível que mais de 100 voos tenham sido realizados com apenas um passageiro a bordo e tudo pago com dinheiro público.
A auditoria analisou mais de sete mil voos entre 2020 e 2024 e concluiu que o custo dessas viagens pode ser, em média, seis vezes maior do que um voo comercial. Ou seja, enquanto o cidadão comum enfrenta aeroportos lotados, conexões longas e passagens caras, parte da elite do poder desfruta de aeronaves exclusivas, muitas vezes vazias, bancadas pelos impostos de quem trabalha duro todos os dias.
O dado mais revoltante talvez seja a estimativa de economia: cerca de 81 milhões de reais por ano poderiam ser poupados caso as autoridades utilizassem voos comerciais. Esse valor não é pequeno. Ele poderia financiar escolas, ampliar leitos hospitalares, investir em segurança pública ou melhorar serviços básicos que a população tanto necessita. Em vez disso, o recurso parece ter sido tratado como se fosse infinito.
Outro ponto grave apontado é o sigilo adotado automaticamente, sem fundamentação legal, sobre a lista de acompanhantes. Esse comportamento levanta questionamentos inevitáveis: quem está viajando? Qual a real necessidade? Há interesse público ou apenas conveniência pessoal? Transparência não é favor, é obrigação especialmente quando se trata do uso de recursos públicos.
É claro que existem situações justificáveis, como emergências médicas, riscos à segurança ou compromissos oficiais urgentes. Porém, quando o uso se torna rotina, com aeronaves decolando praticamente vazias, o argumento da necessidade perde força e dá lugar à impressão de abuso institucionalizado.
O mais preocupante é que esse tipo de prática reforça a distância entre governantes e governados. Enquanto a população é chamada a fazer sacrifícios, cortar gastos e aceitar serviços precários, parte das autoridades mantém padrões de conforto incompatíveis com a realidade do país. Isso não apenas gera indignação, mas corrói a confiança nas instituições.
O Brasil não precisa de mais privilégios; precisa de responsabilidade. O dinheiro público deve ser tratado com o mesmo cuidado que qualquer família tem ao administrar seu orçamento. Cada voo desnecessário, cada gasto exagerado, representa menos investimento onde realmente importa.
A decisão de determinar mudanças nas regras é um passo importante, mas não suficiente. É preciso fiscalização contínua, transparência total e, principalmente, mudança de mentalidade. O poder público deve dar exemplo, não ampliar a sensação de desigualdade.
Porque, no fim das contas, não se trata apenas de aviões. Trata-se de respeito ao cidadão brasileiro.