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O município de Biguaçu pode carregar em seu próprio nome uma história muito mais profunda, dramática e simbólica do que a versão oficialmente difundida ao longo das décadas. A tese foi desenvolvida pelo jornalista, pesquisador e historiador Ozias Alves Júnior (in memorian), editor do antigo Jornal Biguaçu em Foco, atualmente Jornais em Foco, que dedicou anos de estudos para investigar a verdadeira origem do nome da cidade.
A pesquisa começou a partir de uma descoberta considerada extraordinária por Ozias: um antigo mapa publicado pelo aventureiro alemão Hans Staden, personagem histórico conhecido mundialmente por sobreviver ao cativeiro de uma tribo indígena canibal no Brasil do século XVI.

Foto: Estudo de Ozias Alves Júnior aponta que o nome Biguaçu teria origem na expressão indígena “Embiguassu”
Hans Stadent ornou-se famoso ao publicar um livro de memórias descrevendo em detalhes sua sobrevivência no Novo Mundo.

Foto: A origem do nome de Biguaçu foi capa do Jornal Biguaçu em Foco
Hans Staden viveu uma das histórias mais impressionantes do período colonial. Após ser capturado por indígenas no litoral paulista, ele permaneceu durante meses como prisioneiro e escapou da morte graças ao resgate realizado por navegadores franceses ligados ao tráfico de pau-brasil. De volta à Europa, tornou-se famoso ao publicar um livro de memórias descrevendo em detalhes sua sobrevivência no Novo Mundo.
No entanto, entre os relatos históricos deixados por Hans Staden, havia um detalhe que chamou profundamente a atenção de Ozias Alves Júnior: o primeiro mapa conhecido da Ilha de Santa Catarina, atual Florianópolis.
Foi justamente nesse mapa antigo que aparecia uma inscrição misteriosa localizada exatamente na região onde atualmente se encontra Biguaçu. A palavra escrita era “Embiguassu”.
A partir daquele momento, o jornalista iniciou uma verdadeira investigação histórica e linguística para entender o significado da expressão.
Segundo pessoas próximas ao pesquisador, Ozias mergulhou durante anos em livros raros, documentos históricos, estudos indígenas e registros coloniais tentando compreender o que aquela palavra realmente representava. O que mais chamava sua atenção era o fato de o termo aparecer exatamente na região correspondente ao atual território de Biguaçu e ao rio que corta o município.
Durante a pesquisa, Ozias descobriu que existia em Brasília um professor universitário reconhecido nacionalmente como uma das maiores autoridades em língua tupi-guarani do país. Determinado a aprofundar o estudo, ele entrou em contato com o especialista e enviou cópias do mapa de Hans Staden, documentos históricos e informações sobre a cidade.
Dias depois, veio a resposta que mudaria completamente a linha da investigação.
Segundo o professor, a palavra “Embiguassu” teria sofrido transformações naturais ao longo dos séculos até chegar à forma atual “Biguaçu”. O especialista explicou que, com o passar do tempo, era comum populações simplificarem a pronúncia das palavras indígenas, cortando sílabas e reduzindo expressões mais longas.
Ozias mergulhou durante anos em livros raros, documentos históricos, estudos indígenas e registros coloniais

Foto: Biguá Grande é uma sustentação que não se sustenta
Mas o que realmente surpreendeu Ozias foi o significado atribuído à palavra original.
De acordo com a interpretação linguística apresentada ao jornalista, “Embiguassu” significaria “Cerca Grande”.
A revelação levantou imediatamente uma nova pergunta: por que uma região receberia um nome associado a uma grande cerca?
Foi então que a investigação ganhou contornos ainda mais impactantes.
Em uma visita a um museu da cidade de São José, Ozias encontrou uma antiga gravura representando justamente uma enorme estrutura semelhante a uma cerca localizada na região correspondente ao atual território de Biguaçu.
Para o jornalista, aquele desenho reforçava de maneira impressionante sua tese histórica.
A hipótese defendida por Ozias era de que existiu, naquela área, uma grande estrutura utilizada durante o período colonial para aprisionar indígenas capturados por bandeirantes. Os nativos seriam mantidos no local até serem transportados para outras regiões do país, principalmente para servir como mão de obra escravizada nas lavouras de cana-de-açúcar em São Paulo.
Segundo o pesquisador, a estrutura teria se tornado tão marcante para quem navegava ou circulava pela região que acabou virando referência geográfica, dando origem ao nome local.
“Embiguassu” significaria “Cerca Grande”.

Foto: Estudo desvenda origem do nome de Biguaçu
O envolvimento de Ozias com a pesquisa foi tão intenso que ele chegou a percorrer diversas áreas próximas ao Rio Biguaçu em busca de possíveis vestígios físicos que pudessem indicar a existência da antiga cerca. Amigos relatam que o jornalista demonstrava enorme entusiasmo ao falar sobre a descoberta e acreditava que havia encontrado uma das mais importantes revelações históricas já feitas sobre o município.
O estudo acabou sendo transformado em um livro ainda não impresso, no qual Ozias apresenta uma tese considerada original e amplamente fundamentada. No material, ele argumenta que a origem do nome Biguaçu não teria qualquer relação com o pássaro biguá nem com a árvore conhecida como baguaçu, hipóteses difundidas ao longo dos anos sem comprovação histórica mais consistente.
Além de tratar especificamente da história de Biguaçu, o jornalista também abordava em sua obra um fenômeno maior presente na historiografia brasileira: os frequentes erros de interpretação e tradução de palavras indígenas utilizadas para nomear cidades, rios e regiões do país.
Segundo Ozias, o que ocorreu com Biguaçu provavelmente se repetiu em diversos outros lugares do Brasil, onde nomes originários do tupi-guarani acabaram sendo reinterpretados de maneira equivocada ao longo do tempo.
Apesar da relevância da pesquisa, o assunto jamais foi oficialmente aprofundado pelo poder público municipal. Até hoje, não houve a criação de uma comissão histórica específica para analisar a tese ou promover estudos complementares sobre o tema.
O pesquisador lamentava o fato de os estudantes da rede pública municipal crescerem sem conhecer oficialmente aquela que ele acreditava ser a verdadeira origem do nome da cidade.
Para pessoas próximas, Ozias considerava que a descoberta merecia reconhecimento institucional e maior valorização cultural, principalmente por representar um capítulo importante da memória regional e da própria formação histórica de Santa Catarina.
Mesmo sem a publicação oficial do livro, o legado deixado por Ozias Alves Júnior continua sendo lembrado por moradores, leitores e admiradores de seu trabalho. Sua dedicação em pesquisar documentos raros, confrontar versões históricas e preservar a memória local transformou o jornalista em uma das principais referências quando o assunto é a história de Biguaçu.
Décadas depois de iniciar a investigação, a tese criada por Ozias segue sem contestação histórica mais consistente e continua despertando curiosidade sobre aquilo que pode ser, de fato, a verdadeira origem do nome da cidade.