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Por Décio Baixo Alves
Durante anos, Olavo de Carvalho foi tratado por parte da direita brasileira como um símbolo intelectual, um mestre político e até uma espécie de referência moral para milhares de pessoas. Inteligente, articulado e provocador, conquistou admiradores em todo o Brasil. Entre eles estava meu irmão, o jornalista Ozias Alves Júnior, que frequentemente acompanhava seus vídeos e comentários políticos.
Meu irmão admirava a forma como Olavo criticava a política brasileira, a corrupção e aquilo que considerava manipulação ideológica. E durante muito tempo, muita gente embarcou nessa admiração. Mas a pandemia da Covid-19 mostrou que inteligência não significa sabedoria absoluta. Pelo contrário: quando alguém usa sua influência para desacreditar a ciência em meio a uma tragédia mundial, o resultado pode ser devastador.
Olavo de Carvalho minimizou a Covid-19, questionou medidas sanitárias e incentivou discursos que diminuíam a gravidade da doença. Enquanto médicos, cientistas e hospitais enfrentavam uma das maiores crises da história moderna, ele tratava tudo como exagero político.
E a ironia cruel da vida acabou sendo inevitável: Olavo morreu justamente da doença que tantas vezes tentou desacreditar.
Mesmo que familiares e aliados tentem evitar o assunto, é público que ele contraiu Covid-19 antes da morte. O homem que tantas vezes criticou a gravidade da pandemia acabou derrotado exatamente por ela. A realidade venceu a ideologia.
Meu irmão também perdeu a vida para a Covid-19. E isso torna essa reflexão ainda mais dolorosa. Porque enquanto famílias sofriam e choravam seus mortos, existiam figuras públicas alimentando desinformação e fazendo as pessoas desacreditarem da gravidade da doença.
Por isso, confesso que sinto um profundo desconforto quando vejo políticos radicais da direita brasileira indo aos Estados Unidos para tirar fotos diante do túmulo de Olavo de Carvalho. Ele nem sequer morreu no Brasil. Estava vivendo nos Estados Unidos enquanto aqui milhares de brasileiros enfrentavam hospitais lotados e perdas irreparáveis.
Ver políticos transformando aquele túmulo em símbolo ideológico me causa náusea. Não vejo ali grandeza intelectual ou heroísmo político. Vejo apenas o retrato de um radicalismo vazio, que não ajudou o Brasil durante um dos momentos mais difíceis da sua história.
Eu sou conservador. Tenho posições de direita. Mas não confundo conservadorismo com fanatismo. Não confundo opinião política com negação da ciência. É possível defender ideias sem abandonar a razão.
Olavo de Carvalho poderia ter sido lembrado apenas como um crítico político influente. Mas ficará marcado também pela contradição histórica de ter combatido a ciência e terminado vítima da doença que minimizou.
Nenhuma ideologia é maior do que a realidade. Nenhum líder político merece idolatria cega. E nenhuma narrativa pode apagar a dor das famílias que perderam pessoas para a Covid-19, entre elas, a minha.