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Por Décio Baixo Alves
Realmente é repudiante ver o presidente do Congresso Nacional, Davi Alcolumbre, levantar a voz contra o que classificou como “grave interferência” do Supremo Tribunal Federal no Legislativo. A declaração veio após decisão do ministro André Mendonça, que acatou mandado de segurança determinando a prorrogação dos trabalhos da CPI do INSS.
Mas a pergunta que não quer calar é simples: onde estava essa indignação antes?
Onde estava o presidente do Senado quando parlamentares tiveram suas prerrogativas questionadas e decisões judiciais impactaram diretamente o exercício do mandato? Onde estava quando o Supremo interferiu em temas sensíveis ao Congresso, como discussões legislativas que deveriam ser resolvidas dentro da própria Casa? Onde estava quando decisões judiciais anularam atos de CPIs, barraram quebras de sigilo e influenciaram diretamente investigações parlamentares?
Agora, quando a decisão do Supremo permite a continuidade de uma investigação que pode ampliar apurações sobre irregularidades envolvendo aposentados, pensionistas e pessoas vulneráveis, surge a indignação. Coincidência? Difícil acreditar.
A CPI do INSS vem revelando denúncias graves, com suspeitas de prejuízos a idosos, aposentados, viúvas e pessoas com deficiência. Estamos falando de brasileiros que dependem desses recursos para sobreviver. A comissão precisa de tempo para aprofundar as investigações, identificar responsabilidades e apresentar conclusões sólidas. No entanto, a resistência à prorrogação levanta dúvidas legítimas sobre os motivos por trás dessa postura.
É curioso que a interferência do Supremo só seja considerada grave quando contraria determinados interesses. Quando decisões atingem investigações, anulam quebras de sigilo ou interferem em debates legislativos, o silêncio predomina. Mas quando a decisão judicial garante a continuidade de uma CPI que investiga possíveis irregularidades, o discurso muda.
Isso revela um problema recorrente na política brasileira: a defesa institucional seletiva. Defende-se a autonomia do Congresso quando conveniente, ignora-se quando não interessa. O resultado é a perda de credibilidade perante a sociedade, que já observa com desconfiança os movimentos de bastidores.
A população quer respostas. Quer saber quem lucrou, quem participou e quem precisa ser responsabilizado. Barrar ou reduzir o alcance de uma CPI que investiga possíveis prejuízos a aposentados é, no mínimo, um sinal negativo. E quando a reação surge apenas após decisão contrária, fica a impressão de que o problema não é a interferência, mas quem está sendo afetado por ela.
No fim das contas, a indignação seletiva revela muito mais do que um simples posicionamento institucional. Revela prioridades. Revela conveniências. Revela uma postura que contribui para o desgaste do Congresso Nacional diante da opinião pública.
E é preciso dizer com todas as letras: atitudes como essa envergonham o Parlamento. Transformam uma instituição essencial para a democracia em palco de conveniências pessoais e políticas. Quando um presidente do Congresso age dessa forma, passa a impressão de que a preocupação não é com o país, mas com interesses próprios.
O Brasil precisa de lideranças firmes, coerentes e comprometidas com a verdade. Não de políticos que só reagem quando são atingidos. Não de quem se cala diante de interferências quando elas lhe são convenientes e grita apenas quando o cenário muda.
Por tudo isso, a conclusão é dura, mas inevitável: o senador Davi Alcolumbre se torna, neste episódio, uma vergonha nacional e representa a escória da política brasileira. Um símbolo daquilo que há de mais desgastado, podre e criticado na política brasileira. Uma representação do que a população não aceita mais: a incoerência, a omissão e a conveniência acima do interesse público.