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Cresce o número de pessoas em situação de rua e ex-secretário de Assistência Social defende nova abordagem

Com dados preocupantes e análise de quem esteve na linha de frente da gestão, Bruno Souza , ex-secretário de Assistência Social de Florianópolis

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Florianópolis

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Foto: Bruno Souza alerta que o país vive um ponto de inflexão e antecipa reflexões do livro que está escrevendo

O Brasil vive uma escalada preocupante no número de pessoas em situação de rua, configurando um dos maiores desafios sociais da atualidade. Um estudo nacional do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), publicado em 2022, estimou que havia 281.472 brasileiros vivendo nas ruas naquele ano. Dados mais recentes do Cadastro Único (CadÚnico) apontam que essa população ultrapassou 335 mil pessoas entre 2023 e 2025, revelando um crescimento contínuo e a dificuldade de dimensionar com precisão a dimensão do problema.

Para o ex-secretário municipal de Assistência Social de Florianópolis Bruno Souza — que comandou a pasta em 2025 — os números mostram uma realidade que nenhuma cidade brasileira pode mais ignorar. Sua experiência no cargo motivou a produção de “A Incrível Fábrica de Moradores de Rua”, livro que está escrevendo, já em fase final de edição, e onde está reunindo análises, dados nacionais e vivências da gestão para propor uma revisão profunda das políticas públicas vigentes.

Esse cenário nacional se reflete de forma aguda em Santa Catarina. Um levantamento do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), divulgado em 2025, analisou dados do CadÚnico de 13 cidades e identificou 11.588 pessoas em situação de rua. Florianópolis lidera o ranking estadual, com 3.678 pessoas, seguida por Joinville, Blumenau, Itajaí e Balneário Camboriú. Os dados mostram ainda que grande parte dessa população relata conflitos familiares, perda de moradia e desemprego como causas centrais enquanto mais de 90% são alfabetizados, desafiando a crença de que a falta de escolaridade seria o principal impeditivo de reinserção social.

Segundo um relatório recente do governo federal, os dados administrativos apontam que Florianópolis está entre os 10 municípios com mais pessoas em situação de rua. Outro estudo, do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas para a População em Situação de Rua, da UFMG, aponta que Santa Catarina registrou aumento de 76% dessa população entre 2021 e 2023 de 5.678 para 9.989 pessoas.

Para Bruno Souza, esses dados expõem a principal distorção na abordagem brasileira: interpretar a situação de rua como problema econômico ou habitacional. Em sua avaliação — aprofundada no livro em andamento — a dependência química é hoje o elemento mais determinante, mas segue ignorada como questão central de saúde pública. “Sem enfrentar a dependência química, estaremos sempre apenas enxugando gelo”, afirma Bruno, que critica modelos que acabam funcionando como paliativos caros e que muitas vezes perpetuam o problema, em vez de resolvê-lo.

A partir de sua vivência na gestão, Bruno defende uma política integrada que envolva leitos de desintoxicação, ampliação dos serviços especializados em saúde mental e dependência química, e programas de trabalho estruturados com acompanhamento contínuo. Para ele, a inconsistência de dados entre IPEA, CadÚnico e observatórios independentes e demonstra que o país ainda não sabe medir corretamente o tamanho da crise que tenta resolver, dificultando o desenho de políticas eficazes.

“Penso que o diferencial na minha abordagem (mais realista, creio) é a forma de lidar com as drogas. A cartilha dominante ignora as drogas (porque defendem, de uma forma ou de outra, o uso). Eu defendo que o uso de drogas volte a ser punido com prisão (o que deixou de acontecer em 2006 com a lei 11.343). Além disso, as políticas públicas precisam ser urgentemente revisadas: elas hoje servem mais para subsidiar quem está nas ruas do que para tirar quem lá está. Oferecer comida, estadia, cobertor, motel, tudo por tempo indeterminado, é ser cúmplice da destruição destes indivíduos. Indivíduos, que vale dizer, são potencialmente perigosos: o crack transforma pessoas inofensivas em agressores violentos”, conclui Bruno Souza.

 

Biografia de Bruno Souza

Bruno Souza é ex-secretário municipal de Assistência Social de Florianópolis, ex-deputado estadual e ex-vereador. Analista político e escritor, dedica-se ao estudo de políticas públicas voltadas à população em situação de rua. Atualmente finaliza o livro “A Incrível Fábrica de Moradores de Rua”, onde aponta caminhos para enfrentar uma das crises sociais que mais crescem no país.