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Por Décio Baixo Alves
O Brasil inteiro se revoltou com a história do cão Orelha, morto de forma covarde por quatro adolescentes na Praia Brava, em Florianópolis. O animal, conhecido e querido pelos moradores locais, foi agredido com extrema violência e acabou morrendo após ser submetido à eutanásia, em razão da gravidade dos ferimentos. Outro cachorro também foi alvo dos mesmos jovens jogado ao mar, mas felizmente sobreviveu e foi resgatado por um delegado da Polícia Civil, que decidiu adotá-lo.
O crime, que já seria revoltante por si só, ganha contornos ainda mais indignantes quando se descobre quem são os autores: adolescentes de famílias ricas, com acesso a tudo o que o dinheiro pode oferecer as melhores escolas, as melhores oportunidades, o melhor conforto. Mas que, mesmo assim, demonstraram o pior do ser humano: a crueldade gratuita, o desprezo pela vida e a arrogância de quem acredita que nada tem consequências.
Como se não bastasse a brutalidade, há ainda a afronta moral. Parte desses jovens, segundo informações apuradas pela imprensa, está nos Estados Unidos, em Orlando, curtindo férias na Disney World como se nada tivesse acontecido, enquanto o país inteiro chora a morte de um animal indefeso. É o retrato mais cruel da desigualdade: quem comete um ato bárbaro encontra abrigo em passagens aéreas e carimbos no passaporte.
E o que dizer dos adultos? Pais e responsáveis que, em vez de repreender, tentaram coagir testemunhas e esconder o crime. Famílias que, ao invés de ensinar limites, oferecem advogados. Que preferem salvar a reputação da elite local a salvar a dignidade dos filhos. São adultos que confundem amor com conivência e educação com silêncio.
A morte do cão Orelha virou símbolo de uma sociedade doente uma sociedade que tolera o inaceitável quando parte dos seus “bons meninos” está envolvida. Esses jovens não nasceram monstros. Foram moldados assim, dentro de lares onde a empatia é um luxo e a impunidade é herança. Onde o dinheiro compra conforto, mas também anestesia a consciência.
Orelha não morreu apenas pelas pancadas que sofreu. Morreu pela omissão de uma elite que se acostumou a achar que está acima da lei. Morreu pelo descaso de uma estrutura social que protege o poder e despreza a justiça. Morreu porque ainda há quem acredite que “adolescentes de boa família” merecem tratamento diferenciado, mesmo quando cometem atrocidades.
A sociedade não pode aceitar isso. A justiça precisa ser firme e exemplar não apenas para punir os responsáveis, mas para mandar um recado claro: não há classe social, sobrenome ou conta bancária que sirva de escudo para a crueldade. O caso do cão Orelha deve marcar um ponto de virada. Ou seremos, todos nós, cúmplices silenciosos de uma geração sem alma.