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Por Décio Baixo Alves
O cenário político de Santa Catarina voltou a ferver após o anúncio de que o governador Jorginho Mello (PL) escolheu o prefeito de Joinville, Adriano Silva (Partido Novo), como candidato a vice em sua chapa de reeleição. A decisão, que rompeu um compromisso informal com o MDB, provocou uma reação imediata da sigla, que decidiu deixar a base governista e iniciar a construção de uma candidatura própria.
Mais do que uma simples ruptura partidária, o movimento pode ter consequências eleitorais graves, relembrando um erro histórico que já custou a reeleição de outro governador catarinense no passado.
A ruptura e o efeito dominó no cenário atual
Com a decisão, o MDB anunciou oficialmente seu rompimento com o governo, pedindo a saída de todos os filiados de cargos de confiança e a entrega das secretarias que ocupava, como Agricultura, Infraestrutura e Meio Ambiente. O presidente estadual do partido, Carlos Chiodini, deixou o governo e retomou seu mandato na Câmara Federal, reafirmando a postura independente da sigla.
A partir daí, o MDB passou a discutir a formação de uma candidatura própria ou eventual aliança com o PSD, do prefeito de Chapecó, João Rodrigues, que surge como o principal nome da oposição e pode ser beneficiado pela divisão na base governista.
Essa movimentação abre a possibilidade real de a eleição catarinense de 2026 ir para o segundo turno, cenário que antes parecia improvável diante da força da coligação que Jorginho vinha costurando. Historicamente, o governador tinha tudo para vencer no primeiro turno mas a escolha do vice, vista por aliados como um gesto de arrogância política, mudou completamente o jogo.
Um déjà-vu político: quando Amin perdeu a eleição por romper com o PSDB
O gesto de Jorginho Mello não é inédito na política catarinense. Um episódio muito parecido ocorreu no passado, quando o então governador Esperidião Amin (PP) buscava a reeleição.
Naquela época, o PSDB estava alinhado ao governo e tudo indicava que o partido indicaria o vice na chapa, o então senador Leonel Pavan. No entanto, Amin e o PP decidiram romper com os tucanos de última hora, excluindo o PSDB da composição da chapa majoritária.
A reação foi imediata. Assim que soube da decisão, Leonel Pavan ligou para o então prefeito de Joinville, Luiz Henrique da Silveira (MDB), que era o principal adversário de Amin na corrida ao governo.
Luiz Henrique, percebendo a oportunidade, foi habilidoso: ofereceu ao PSDB o direito de indicar as duas vagas ao Senado ou o vice em sua chapa.
O resultado foi uma reviravolta política. O PSDB aderiu ao projeto do MDB, e Leonel Pavan acabou sendo candidato ao Senado, enquanto o partido apoiou a candidatura de Luiz Henrique ao governo.
Naquele momento, Esperidião Amin liderava as pesquisas e era tido como favorito absoluto à reeleição. Porém, com a saída do PSDB e o apoio dos tucanos ao MDB, o resultado das urnas mostrou o impacto da ruptura: Amin perdeu a eleição e Luiz Henrique tornou-se governador de Santa Catarina.
Além disso, Leonel Pavan saiu fortalecido da aliança e foi eleito senador da República, consolidando-se como uma das principais lideranças tucanas do estado.
O episódio marcou a história política de Santa Catarina como um exemplo clássico de erro estratégico em alianças e agora, segundo analistas e observadores políticos, Jorginho Mello parece repetir o mesmo caminho.
O novo tabuleiro: MDB fora, PSD fortalecido e PT como fiel da balança
A saída do MDB da base de Jorginho muda totalmente a configuração eleitoral. Sem a força da legenda, que possui presença consolidada em praticamente todos os municípios catarinenses, o governador perde amplitude e corre o risco de enfrentar uma oposição unificada.
Nesse cenário, João Rodrigues (PSD) tende a crescer como principal nome da direita alternativa, com chances reais de levar a disputa ao segundo turno.
E se houver segundo turno, entra em cena o Partido dos Trabalhadores (PT) que historicamente mantém entre 18% e 22% dos votos em Santa Catarina. Ainda que o PT dificilmente chegue ao segundo turno, esse percentual pode definir o vencedor, e dificilmente migrará para o número 22 do PL.
Com o eleitorado de esquerda buscando uma alternativa ao bolsonarismo, o voto útil pode ir para o 55, sigla do PSD. Assim, João Rodrigues pode se beneficiar duplamente: herdando parte dos votos do MDB e recebendo o apoio indireto de setores da oposição.
Um tiro no pé político
Apesar de ainda ser o nome com maior aprovação entre o eleitorado conservador, Jorginho Mello pode ter cometido um erro grave ao subestimar o peso das alianças regionais.
O governador, que já enfrentava críticas por uma gestão considerada burocrática e pouco inovadora, agora passa a lidar também com a percepção de isolamento político.
Além disso, João Rodrigues, ex-comunicador e figura popular, tem habilidade para explorar esse desgaste em campanha lembrando ao eleitor episódios passados em que Jorginho já apoiou líderes de espectros opostos, como a ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Isso pesa muito num estado bolsonarista.
O cenário de 2026, portanto, tende a ser muito mais imprevisível do que se imaginava. A história política catarinense mostra que romper alianças no momento errado pode custar caro e Jorginho Mello, ao repetir o erro de Amin, pode ter aberto caminho para que a história se repita.